Fernanda Canassa – Terapeuta
Há pouco mais de um ano, tomei uma decisão que mudaria completamente a forma como eu enxergava a minha própria vida: comecei um processo terapêutico.
Fui motivada por crises reais que eu vivia dentro da minha própria casa. Eu estava mais nervosa com a minha filha, que ainda não tinha um ano. Não entendia direito como conciliar os desafios de cuidar dela, de mim, da casa, do trabalho e de viver a maternidade. Eu me culpava o tempo todo e, ao mesmo tempo, culpava as pessoas ao meu redor por tudo o que estava acontecendo. Meu relacionamento com o meu marido também não ia bem. Foi então que percebi que precisava parar e admitir que alguma coisa precisava mudar.
Sempre acreditei muito na espiritualidade, e foi nesse momento que comecei a pedir a Deus que me ajudasse a não repetir os mesmos ciclos. Eu não queria reproduzir, na famÃlia que estava construindo, situações que haviam marcado a minha própria história.
Foi em um encontro despretensioso com algumas amigas que conheci a terapia sistêmica e o SISBIO, método terapêutico criado pelo fisioterapeuta Rodrigo Kim. Elas me contaram sobre essa abordagem e, assim, tive meu primeiro contato, participando de algumas sessões de terapia.
Essas sessões me ajudaram a acessar traumas, compreender por que eu repetia determinados padrões e, principalmente, a ressignificar muitas experiências da minha vida. Se existe uma palavra que define esse processo para mim, é justamente essa: ressignificar.
O que eu não imaginava era o quanto esse caminho abriria portas dentro de mim que eu nunca havia parado para observar. Comecei a entender de onde vinham certos comportamentos, reações automáticas e medos que eu carregava sem sequer saber nomeá-los.
Aos poucos, fui percebendo que muitas das coisas que eu repetia na minha vida não eram apenas "sobre mim". Eram parte de uma história que vinha de antes, atravessando gerações de forma silenciosa. E foi a partir dessa compreensão que comecei, de fato, a escrever uma história diferente.
Entender para acolher
Um dos aprendizados mais importantes desse processo foi perceber que entender nossas emoções não é sobre encontrar culpados, nem em nós mesmos, nem nos outros. É sobre acolhimento. Quando paramos de julgar o que sentimos e passamos a olhar com curiosidade para as nossas próprias reações, abrimos espaço para compreender de onde elas vêm e, principalmente, para escolher se ainda queremos segui-las.
A ciência tem mostrado, cada vez mais, como o estresse emocional crônico e os ciclos que não conseguimos resolver afetam também o nosso corpo. Isso reforça algo que a terapia me ensinou na prática: cuidar da nossa saúde emocional não é um luxo ou um capricho, é parte de cuidar de nós mesmos de forma integral, sempre lado a lado com o acompanhamento médico quando ele for necessário.
De paciente a terapeuta
Enquanto vivia essa transformação, comecei a perceber quantas pessoas ao meu redor carregavam a mesma necessidade que um dia também foi minha: ter alguém que as ajudasse a olhar para as raÃzes emocionais e sistêmicas dos padrões que pareciam mantê-las presas.
Foi esse olhar que me levou a estudar o método SISBIO, a Constelação Familiar e a me aprofundar nesse universo. Com o tempo, percebi que também queria ocupar esse lugar: o de caminhar ao lado de outras pessoas e ajudá-las a romper ciclos que já não desejam carregar, assim como eu fui ajudada a transformar os meus.
Hoje, como terapeuta, meu trabalho é justamente esse: acompanhar mulheres que sentem que já tentaram de tudo e, ainda assim, continuam presas aos mesmos padrões, nos relacionamentos, nas decisões ou na forma como se relacionam consigo mesmas e com a vida. Juntas, buscamos compreender as raÃzes emocionais e sistêmicas desses ciclos, com clareza, acolhimento, escuta e responsabilidade, sempre respeitando os limites da atuação terapêutica e trabalhando em conjunto com outros profissionais de saúde quando necessário.
Se existe algo que eu gostaria que você levasse deste texto, é isto: buscar ajuda não é sinal de fraqueza. Muitas vezes, é o ato mais corajoso que podemos escolher. É o primeiro passo para interromper ciclos, construir novos caminhos e escrever uma história que não precisa se repetir.
Fernanda Canassa – Terapeuta